Pessoal:
Este é o quadro que o artista plástico Caludyo Casares doou a Cas de España. Fica aqui o nosso agradecimento ao Claudyo.
Sergio Aranha
Um breve histórico sobre o artista e sua obra
Das areias da Vila Angélica, em Sorocaba, aos mascarados de Poconé, em Mato Grosso, Claudyo Casares viajou pela história da arte para aportar no continente europeu. Na Espanha, pisou inicialmente as pedras das ruas do Centro Gótico de Barcelona onde Pablo Picasso respirou na sua juventude os ares que alimentaram sua vida e arte, depositou sua releitura abrasileirada de Guernica, numa concepção tropical do pesadelo que nunca termina: um festival de cores fortes em que o horror da violência e da miséria humana, concebido pelo artista brasileiro, substitui o horror da violência da guerra, concebido por Picasso a partir dos bombardeios da aviação alemã. A exposição, promovida pela Galeria Zero, mostrava “El dia despúes”, um manifesto artístico contra o bombardeamento do Afeganistão.
Nesse contexto, a arte deste brasileiro assumiu destaque entre representantes mundiais. Nela, com certeza estavam latentes os resquícios de um desenho ingênuo que Casares esboçara há décadas nas areias, lavadas e espraiadas pelas águas da chuva, na Vila Angélica, em Sorocaba, bairro periférico que abrigava descendentes da intensa migração européia que se acomodavam na periferia da cidade industrial, famosa por introduzir o plantio do algodão arbóreo no cenário nacional brasileiro, para suprir as necessidades européias decorrentes da falta de fornecimento do produto para acionar as máquinas têxteis de Manchester, na Inglaterra.
Sua Guernica lhe abriu as portas que um dia haviam se fechado para o gênio espanhol. Daí para o 10º Salão Internacional de Barcelona foi só uma questão de tempo. Na exposição, promovida pela ACEAS – Federação Internacional de Artistas Plásticos, foi um dos quatro premiados dentre 150 outros artistas. O trabalho, A sagrada família, reviu os aspectos da forma na composição renascentista de Da Vinci, também com a leitura abrasileirada das relações familiares.
Novamente o vento havia soprado para longe a areia que recebera os primeiros desenhos, já há muito se haviam perdidas as características de um brinquedo ingênuo rabiscado com gravetos colhidos nos imensos terrenos baldios que tinham como moldura o planeta que servia de suporte para os riscos dos gravetos que rasgavam a terra momentaneamente sob o céu azul e o arco-íris que imprimia na memória do artista, ainda menino, as primeiras noções de cores, como a anunciar que o mundo estava começando, mais uma vez, a cada enxurrada que corria pelas ruas, quase urbanizadas de uma vila de periferia.
As formas brotavam aleatoriamente naquela única brincadeira de garoto que nem tinha com o que brincar, a não ser a natureza. Cláudyo Casares e seus amigos eram filhos de operários da Estamparia, como era conhecida uma das fábricas da indústria de tecelagem que se somavam por vários cantos da cidade, numa revolução industrial tardia e faziam da atividade uma das principais na vida econômica de Sorocaba nos anos 50 do século XX. As indústrias remetiam a cidade para o outro lado do mar, numa comparação com a cidade inglesa de Manchester, conhecida pelo preparo de tecidos em algodão.
Ao mesmo tempo gravava na lembrança as imagens do folclore regional: a fé das festas do Divino e da Dança de São Gonçalo, a música de lamento e desafio dos Cururus e um modo de vida que se refletia em sofrimento imperceptível de migrantes europeus de segunda ou terceira geração. Manifestações que iria encontrar anos mais tarde nos cantos de Mato Grosso, como a registrar a origem do Estado, ocupado inicialmente pelos sorocabanos, Miguel Sutil, Moreira Cabral, Duarte, Paes de Barros, que, como Casares, também migraram em busca de novos horizontes.
Claudyo Casares gravou na memória não só os traços avermelhados extraídos do saibro da infância como também o azul do céu limpo e lavado pela chuva, as cores do arco-íris e os traços do desenvolvimento de residências, como desenhista arquitetônico nos escritórios de arquitetura de Edson Eduardo Nunes, ao mesmo tempo em que cursava Edificações na Organização Sorocabana de Ensino. Já sensibilizado pela atividade artística, foi em 1973 que tomou contato com as Demoiselles de Avigñon, numa reportagem de jornal que noticiava a morte física de Pablo Picasso. Até então, ninguém, para aquele adolescente que buscava o futuro desenhando plantas de casas para acolher os bem sucedidos sorocabanos que ostentavam em suas paredes a arte de um universo de artistas que Casares desconhecia.
Anos depois, quando retornou à sua cidade natal, Tietê, aprimorou-se no traço arquitetônico com os irmãos Henrique e Frederico Falcão Sottovia e tomou contato com a história da arte, por meio do acervo pessoal de milhares de fotos, slides e documentos colhidos pelos dois em todo o mundo. Dali embarcou na aventura do desbravamento do Centro Oeste, finalmente chegando à Cuiabá.
A descoberta das cores, que se pronunciou de maneira definitiva em terras do Centro Oeste, também marcou uma nova trajetória de Casares estampada num painel deslocado da exposição Casa Cor 2000 como síntese de um trabalho de rua, quase um graffiti. Um painel de 14,00 X 4,50 metros do muro que nasceu para ser efêmero mas que ainda hoje registra o vivo de cores que as águas das abundantes chuvas de Cuiabá não conseguiram apagar, tornando-o perene a animar as atividades festivas do local, como a testemunhar o surgimento de um novo tempo.
Como seus antecessores da Europa latina haviam feito no passado, Casares descobriu o Brasil 500 anos depois, uma manifestação tardia transformada em arte que expôs em Florianópolis para rememorar a quinto centenário da presença de europeus nas terras dos Tupinambás.
Prenunciava-se um novo tempo que começou a alvorecer com a pintura dos mascarados de Poconé, um conjunto de seis painéis que retrata uma das principais manifestações populares do Pantanal A dança dos mascarados, resquício da presença da cultura portuguesa e espanhola dos primeiros sorocabanos que desbravaram as terras abrigadas no centro do continente sul americano. Peças que hoje são parte integrante do acervo do Complexo Turístico Sesc Pantanal. Os mascarados, concebidos, engendrados e materializados no atelier do artista plástico Pádua, em Cuiabá, desvendaram para Casares um novo caminho que o conduziu às origens do velho continente europeu.
Esses trabalhos já revelavam a tradução dos desenhos agregados à areia de Sorocaba, incorporados ao papel na escola primária. Claudyo Casares também incorporou ao papel a paciência da mãe que passava suas horas a bordar guardanapos com frutas, peixes e outros elementos da cozinha, atividade que alimentou no pai o sonho de vê-lo atrás da prancheta a desenhar motivos para tecidos, na própria Estamparia onde ganhava o sustento da família de oito filhos. Mas que, distante dali, foram revelar-se em Florianópolis, unindo mar/rio e morros de Chapada dos Guimarães, abrigando peixes, frutas e outros motivos da natureza que se descortinavam ante os olhos do artista.
Seu olhar e seus sentimentos pousaram então no além-mar um caminho que não imaginava trilhar ao deixar os irmãos Sottovia, em Tietê, cidade paulista onde nasceu e morou antes e depois de ir para Sorocaba e que serviu de plataforma para sua migração ao Centro-Oeste brasileiro. No Brasil Central, Claudyo Casares, encontrou um campo aberto para aprimorar-se no desenho de perspectiva e instalou-se em Cuiabá. Desenvolveu projetos de estudos de cores a partir das inovações possíveis com a politonia tricrômica, temperados com o talento aprimorado pelas técnicas apreendidas auto-didaticamente e pelo gosto desenvolvido a partir de uma grande variedade de estudos.
Seus trabalhos, exclusividade de amigos da convivência diária, passaram para o público em geral devido ao XVII Salão de Arte Jovem Mato-grossense, em 1998. O incentivo dado pela primeira exposição serviu como motivação para tentar a seleção no Salão de Araraquara, interior de São Paulo, ainda em 1998. Neste ano, a primeira exposição individual levou as cores e os movimentos das telas de Claudyo Casares para o Espaço Cultural da Aliança Francesa. Em seguida recebeu o convite para a Exposição "Eu não sou daqui", que acontece na Galeria Galpão das Artes, na cidade de São Paulo, entre os dias 6 e 16 de julho. E, para a Sétima Edição do Salão "Futuros Artistas Famosos" que o remeteu à Internet, de 3 a 13 de agosto.
À dança sensual das cores primárias desenvolvidas em mais de 20 anos de ensaios do autodidata Claudyo Casares, juntaram-se os detalhes da geografia regional de um país chamado Brasil e o modo de viver vivo e alegre registrados por matizes que chegam a ser surpreendentes. Em sua criação, há um pouco do céu lavado pela chuva, da areia sedimentada da enxurrada e principalmente do arco-íris, que, como um caleidoscópio, ativam a fantasia originada por uma experiência de décadas de vida, a partir das três cores primárias.
No desenho poliforme, que emoldura as cores, surgem, quase que num plano só de percepção, os elementos da natureza de Mato Grosso, de São Paulo e do Sul do país com todas as suas variáveis transformadas numa linguagem metafórica da exuberância geográfica traduzida por elementos do mar, dos campos e cerrados, do pantanal e da Floresta Amazônica, criando um denominador comum atemporal de prazer visual. Denominador que se tornou co-mundial neste século XXI.
Seus trabalhos hoje ganharam espaço para exposições na Catalunha (The day after – El dia después) e, ainda lá, recebeu o Prêmio Alfonso Arana, com a obra Sagrada Família, no X Salão Internacional de Barcelona. Depois vieram premiações no Salão Internacional Ramon Puig, exposições que marcaram ações pela paz dos artistas sem fronteiras, participação no 1º Salão internacional da Galeries Artitude – Village Suisse em Paris (FR), Coletiva de artistas de la Galeria Artitude de Paris a Barcelona Espai Aceas, em Barcelona, e exposições em Madri, Galícia, Pontevedra, dentre outras. Casares também fez parte, com seu trabalho, do mês da Cultura Brasileira do Latin American Art Museus no Miami Art Center, - na Florida (EUA). Sua última exposição no exterior, em Dezembro de 2003 No XIV Salão Internacional de Barcelona, recebe mais um prêmio dentre mais de cento e cinqüenta artistas de diversas partes do mundo e apresenta ao público de Madri sua obra Metamorphosis, um estudo que retomava, em elementos da natureza brasileira, a cultura Gaudiniana.
Ailton Segura.
Mestre em Comunicação da UFMT.
www.claudyocasares.art.br