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     Estudioso descarta riscos e propõe a criação do Polo Cultural do Grande Pampa

    Das 43 edições da Semana do Tropeiro até hoje realizadas, o pesquisador e artista plástico Mário Barboza de Mattos teve participação ativa em pelo menos 40. No começo da década de 70, ele integrou-se ao grupo que cuidava da organização do evento e destacou-se como um dos mais prolíficos estudiosos do tema. Mário Mattos produziu cartazes, quadros, ajudou a difundir a cultura tropeira. Por falar no evento, vale lembrar que o lançamento da programação da 43ª Semana do Tropeiro Vera Ravagnani Job será realizado hoje apenas para convidados, às 19h33, na Biblioteca Infantil Renato Sêneca de Sá Fleury.

    CULTURA TROPEIRA - [ 19/05 ]

    Estudioso descarta riscos e propõe a criação do Polo Cultural do Grande Pampa

    José Antônio Rosa

    Notícia publicada na edição de 19/05/2010 do Jornal Cruzeiro do Sul, na página 3 do caderno B - o conteúdo da edição impressa na internet é atualizado diariamente após as 12h.

     
    Divulgação

     

    Das 43 edições da Semana do Tropeiro até hoje realizadas, o pesquisador e artista plástico Mário Barboza de Mattos teve participação ativa em pelo menos 40. No começo da década de 70, ele integrou-se ao grupo que cuidava da organização do evento e destacou-se como um dos mais prolíficos estudiosos do tema. Mário Mattos produziu cartazes, quadros, ajudou a difundir a cultura tropeira. Por falar no evento, vale lembrar que o lançamento da programação da 43ª Semana do Tropeiro Vera Ravagnani Job será realizado hoje apenas para convidados, às 19h33, na Biblioteca Infantil Renato Sêneca de Sá Fleury.

    Do alto dos seus 85 anos e com o domínio que a experiência lhe confere, o também escritor membro da Academia Sorocabana de Letras, mudou-se para Pelotas, no Rio Grande do Sul, em 1990. Volta a Sorocaba com frequência para visitar familiares. No sábado, soube, pelo Cruzeiro do Sul, do alerta feito pelo estudioso Álvaro Augusto Antunes de Assis, segundo quem o tropeirismo precisa, urgentemente, ser reavaliado.

    Registrou suas impressões num artigo e, procurado pela reportagem, concedeu entrevista na qual reafirma o ponto de vista. Para o historiador, não há motivos para alarmismos. O desinteresse pelo tema é consequência da evolução, da mudança de comportamento.

    Mattos diz que não é possível exigir patente sobre o ciclo histórico, já que o que é da cidade continuará a ser. Ele também relacionou uma série de medidas que pretende discutir com os colegas na próxima reunião da Academia.

    Entre outras sugestões, Mattos propõe que Sorocaba possa se tornar o que chamou de Polo Cultural do Grande Pampa, graças à identidade com o gauchismo, a digitalização de obras sobre o tema e maior estímulo ao estudo da matéria nas escolas da rede pública. Confira, aqui, trechos da conversa:

    O tropeirismo corre o risco de se tornar um mero registro histórico?

    Não parecer ser esse o caso. Ainda existem focos de resistência, teses acadêmicas muito boas sobre o assunto têm sido produzidas. O quadro é, de fato, preocupante, mas ainda podemos revertê-lo. Eu citaria como exemplo o livro Travessia, da jornalista Juliana Simonetti, que acabei de ler e que muito me impressionou. Ela sintetiza, no trabalho, a esperança de que o tropeirismo tem longa vida. Usa da linguagem apropriada, o que é uma proeza, já que as narrativas, nesses casos, pecam por fugir desse padrão para privilegiar uma estética que não condiz com essa realidade. Guimarães Rosa, sabemos, fala no seu Grande Sertão, Veredas da vocação tropeira.

    O que estaria acontecendo com o tropeirismo em Sorocaba?

    É preciso, antes, deixar claro que o que estamos assistindo não é culpa de ninguém. Sorocaba experimentou, nos últimos anos, uma explosão de progresso. E isso, claro, trouxe consigo mudanças de postura, de comportamento. Não podemos alimentar a pretensão de que as novas gerações guardem um apego às raízes, às tradições. Não, ao menos, se não são orientadas como deveriam ser. Parece haver uma certa desunião, pessoas trabalhando isoladamente pela mesma causa. Na região sul do país, onde o tropeirismo começou, isso não acontece. Existe um orgulho, uma querência, uma satisfação de se preservar traços da cultura.

    O que acontece, portanto, é reflexo da evolução? Um fenômeno até natural?

    Tudo muda. Não considero, agora, produtivo discutirmos as causas do fenômeno, mas entendê-las para encaminharmos, sendo o caso, soluções. O tropeirismo não é autóctone, ou seja, não nasceu em Sorocaba. Logo, não podemos reivindicar quaisquer direitos de patente sobre o ciclo histórico. Que tem, inegavelmente, sua importância, mas que deriva de outra região e trouxe consigo características e traços próprios. Ademais, o que é de Sorocaba, continuará a pertencer a Sorocaba. O que nos cabe, agora, é encontrar formas de vencer o desafio de popularizá-lo, torná-lo acessível, resgatar essa identidade, respeitando nossa realidade. Não falo de pasteurização, mas de uma readequação.

    Por que, afinal, o tropeirismo não desperta mais tanto o interesse?

    Essas considerações devem ser relativizadas. O tropeirismo desperta, sim, o interesse. Prova disso é a Semana do Tropeiro que já está em sua 43ª edição. Não podemos nos esquecer do trabalho incansável de pesquisadores como Vera Job, Adolfo Friolli, Geraldo Bonadio, Adilson Cezar, Sérgio Coelho, Benedicto Cleto e tantos outros que a memória não alcança. O evento precisa passar por uns retoques, criar uma dinâmica, tornar-se atraente. Precisa de um símbolo, um marco. Eu até pretendo sugerir, na próxima reunião da Academia Sorocabana de Letras, que um dos símbolos possa ser o conto 300 Onças, de João Simões Lopes Neto. É um texto primoroso, que fala da fibra, da capacidade de superação, da temperança e da obstinação do tropeiro.

    Que outras sugestões o senhor deve apresentar?

    Eu considero importantes algumas medidas: a academia poderia criar um acervo em mídia digital, CDs, com textos e trabalhos dos pesquisadores sobre o ciclo tropeiro. Caberia, aí, também, ilustrações, cartazes das edições passadas da Semana do Tropeiro, quadros e outras produções. É preciso reforçar o ensino nas escolas. Infelizmente, poucas são as pessoas com vocação para falar do tema. A história exige desprendimento, vocação, interesse, paixão. E isso encontramos nos abnegados colegas que se debruçam sobre a história do município. Outra proposta é estimular os concursos de redação sobre o tropeirismo, os desfiles. Sorocaba pode se tornar, por que não, o Polo Cultural do Grande Pampa. Tanto quanto defendemos o bioma da Amazônia, podemos defender o bioma do Grande Pampa sulino. Está na massa do sangue do sorocabano a simpatia pelo gauchismo. Os setores culturais podem e devem participar. O tropeirismo pode ser retratado em outras expressões, como a música. Temos, aliás, a Sinfonia Tropeira, belíssima. É possível, ainda, estudar o tropeirismo como alternativa ao estresse da vida moderna. Ele oferece múltiplas possibilidades.

    O senhor, na prática, propõe uma agenda para atender à demanda. O poder público não teria participação nesse processo?

    Sempre é importante contar com o apoio do poder público. O problema é que nem sempre os governos orientam-se pelos critérios que deveriam observar. Prevalece a vaidade, o comprometimento com questões menores, e o que realmente importa, fica relegado ao plano secundário. O tropeirismo é fator de unidade, deve agregar. Até para que possamos preservar nossa identidade. E a identidade só pode ser preservada com instituições democráticas fortalecidas.

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