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| O jogo da memória por Érica Georgino - Revista da Cultura | |
A memória é um processo cerebral que permite o pleno conhecimento do ontem, do hoje e do amanhã. Funciona como uma cola, que une o senso cronológico dos conhecimentos e possibilita que, com base em nossas experiências prévias, possamos pesar ações para o presente e o futuro. A memória é processada em duas estruturas do cérebro humano. Quando uma nova informação é absorvida, ela é lançada ao hipocampo – espécie de arquivo transitório, onde normalmente fica guardada num período que varia entre três e seis meses.
Nesse intervalo, se o cérebro considerar a informação relevante, ele a migra para o córtex cerebral, região rica em neurônios, onde fica permanentemente guardada. O critério de relevância, para que ocorra a fixação ou o descarte de uma informação, varia de acordo com a quantidade de vezes que ficamos expostos a ela, ou seja, quanto mais estudamos um determinado tema, mais nosso cérebro entende que ele é importante e trata de arquivá-lo. |
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A memória é um processo cerebral que permite o pleno conhecimento do ontem, do hoje e do amanhã. Funciona como uma cola, que une o senso cronológico dos conhecimentos e possibilita que, com base em nossas experiências prévias, possamos pesar ações para o presente e o futuro. A memória é processada em duas estruturas do cérebro humano. Quando uma nova informação é absorvida, ela é lançada ao hipocampo – espécie de arquivo transitório, onde normalmente fica guardada num período que varia entre três e seis meses.
Nesse intervalo, se o cérebro considerar a informação relevante, ele a migra para o córtex cerebral, região rica em neurônios, onde fica permanentemente guardada. O critério de relevância, para que ocorra a fixação ou o descarte de uma informação, varia de acordo com a quantidade de vezes que ficamos expostos a ela, ou seja, quanto mais estudamos um determinado tema, mais nosso cérebro entende que ele é importante e trata de arquivá-lo.
A memória, no entanto, promove relações que transcendem a ebulição de bilhões de neurônios ou a parceria entre o hipocampo e o córtex cerebral. Além do ponto de vista científico, a memória desfia as suas vertentes nas mais triviais relações do dia a dia. "A sociedade existe porque existem a memória e a história. A memória ajuda cada geração a ter a sua identidade. Um bebê já nasce com uma certa memória cultural, pois está imerso nas peculiaridades do grupo social a que pertence", diz a psicanalista Delia Catullo de Goldfarb, consultora do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) e diretora da Ger-Ações, Centro de Pesquisas e Ações em Gerontologia.
Qualquer elemento serve para a construção da memória de um indivíduo. O cheiro da broa de milho que acaba de sair do forno, por exemplo. Um sujeito pode ter relação afetiva com o aroma, de repente recordar-se da infância na casa da avó, da forma como ela preparava a massa, de uma antiga empregada da casa que lhe servia os pãezinhos, das brincadeiras com os primos no quintal. Proust descreve muito bem esta sensação na obra-prima Em busca do tempo perdido, em reveladora passagem na qual o personagem degusta madeleines e viaja no tempo. Neste caso, um dado (cheiro) impulsionou uma lembrança, desencadeando uma série de recordações que estavam conectadas. Podemos comparar, assim, a construção da memória ao hardware de computador, com seus milhares de cabos e conexões, ou à simples manta de tricô, em que os fios entrelaçados dependem uns dos outros e, quando puxada uma ponta, todo o tricô pode se desfiar – é assim que a memória vem à tona. Quando ela se descola do individual e passa para o plano da comunidade, novas relações são formadas. Como define a psicóloga Ecléa Bosi na obra Memória e sociedade – Lembranças de velhos: "Uma memória coletiva se desenvolve a partir de laços de convivência familiares, escolares, profissionais. Ela entretém a memória de seus membros, que acrescenta, unifica, diferencia, corrige e passa a limpo. Vivendo no interior de um grupo, sofre as vicissitudes da evolução de seus membros e depende de sua interação".
A memória coletiva também pode ser estendida a pessoas que não viveram acontecimentos em comum, mas que compartilham inteiramente de suas sensações. "Vamos considerar uma geração de crianças que cresceu nos anos 60, em plena ditadura militar. Hoje, elas podem ser adultos que concordam inteiramente com seus pais, avós ou tios que lutaram contra a repressão e são capazes de falar com exatidão da época, como se também tivessem participado das lutas sociais. Isso se chama 'memória por tabela'", explica Teresinha Bernardo, professora do departamento de Antropologia e do Programa de Estudos Pós- Graduados em Ciências Sociais da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC -SP ).
MUTANTE E MALEÁVEL
As memórias da sociedade são formadas por monumentos, datas comemorativas, correspondências, depoimentos, fotografias. Todos são pedrinhas do mosaico formado pela memória dos indivíduos, de certo grupo étnico, de uma empresa ou mesmo de um país. "A memória sempre está em mutação. Isso implica na relação entre passado, presente e futuro, como também em lembrar e esquecer. É importante dizer que a memória é seletiva. E não é neutra, pois se trata de um instrumento político poderoso, usado de diferentes maneiras para que as pessoas se lembrem ou se esqueçam de determinados fatos", diz a historiadora Marieta de Moraes Ferreira, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e pesquisadora do Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CP DOC ), da Fundação Getulio Vargas (FGV).
Assim, a memória é moldável: podemos tirar um pedaço aqui e colocá-lo ali, aumentar uma parte ou diminuir outra. "Sempre que uma pessoa recorda um acontecimento, ela o constrói. Isso porque entre a ocorrência do fato e a sua lembrança há um intervalo de tempo que muda a pessoa. O sujeito que lembra não é o mesmo que viveu. Sua história de vida influencia na recordação", explica a psicanalista Delia Goldfarb.
Pisando no terreno maleável da memória, surge a necessidade de diferenciá-la da história. A memória é subjetiva, não possui compromisso com a crítica ou sequer se preocupa com a fidedignidade da informação. Enquanto a história se posiciona como produtora de conhecimento, com métodos de pesquisa e de investigação. Mas nem por isso memória e história são elementos opostos – estão, na verdade, mais para parceiros de longa data. Quando as memórias são ativadas, elas apontam indícios e subsídios que podem ser estudados para virar história. "Uma memória também é resultado de ações e de projetos. Quando se escolhe data, fato ou personagem a ser trabalhado, significa que há a intenção de construir ou ao menos fortalecer a sua lembrança", diz a historiadora Marieta Ferreira. (Vide boxe sobre o projeto Memórias Reveladas).
DILÚVIO E CAUSOS SEM FIM
O filme Narradores de Javé, lançado em 2003, expõe bons exemplos de subjetividade da memória. Ele conta a história do Vale do Javé, comunidade fictícia localizada nos mais longínquos rincões brasileiros que se vê ameaçada pela construção de uma usina hidrelétrica. Javé fica no caminho das águas e, com a obra da represa, será inundada. Alguns líderes do povoado, após encontro com engenheiros responsáveis pela usina, anunciam a única esperança para a preservação do local: "Os homens responderam que quando a cidade tem alguma coisa importante, história grande, ela é tombada e vira patrimônio. Aí ninguém pode mexer nela".
Javé se aventura, então, em uma verdadeira odisseia. Afinal, o que a cidade tem de valor para se transformar num bem cultural? O povo conclui que a grandeza remonta à sua origem, “formada por um punhado de gente valente, que era a sobra de uma guerra perdida”. Gente expulsa de terras onde a coroa portuguesa encontrara ouro, ainda nos tempos da colonização do Brasil. O passo seguinte foi registrar o nascimento da cidade. Tarefa aparentemen- te simples, não fosse um detalhe: ninguém de Javé era alfabetizado. “E como é que vamo juntá as história, que tá tudo aí, espalhada nas cabeça do povo? E de quem é a mão santa que vai escrevinhá, botá as letra no papel?”.
O trabalho, então, foi legado a Antônio Biá, “intelectuário e alcólatra”, que havia sido expulso de Javé por calúnia e difamação da gente do povoado. Funcionário dos Correios, Biá era o único das redondezas que dominava a leitura e a escrita. Recebeu um grande caderno (o livro da salvação) e ficou incumbido de ouvir o povo e registrar as “lembranças javéricas da história e da pré-história”. Seu desafio era registrar os causos que sempre foram ouvidos e contados, mas nunca haviam sido escritos e lidos. Biá assumiu as vezes de Homero e, sem pudor algum, cantou – ou apenas tentou cantar – a grandeza da região. O pseudoescritor bateu de porta em porta na cidade. Acabou aturdido pela diversidade das memórias resgatadas. Não conseguiu construir uma história que abrangesse, ou no mínimo agradasse, a todos os narradores do local.
O filme envereda pelas reminiscências dos habitantes de Javé, cada qual querendo atribuir função mais nobre aos seus antepassados. Mas o que fazia Javé ser, afinal, Javé? A memória de sua gente, transmitida por gerações via tradição oral. A oralidade marcava inclusive as posses territoriais: subia-se nos morros e cantava-se “até a vista daquele morro, partindo daquele rio, ‘as terras são minhas’”. Confrontada com o progresso, sintetizado na imagem da usina, Javé precisou se oficializar e construir, em poucos dias, uma memória uníssona e uma história “baseada em fatos científicos”, como insistiam os moradores com o escriba Biá.
É interessante relacionar o enredo do filme ao fato de que a própria existência humana se reconhece a partir da invenção da escrita. Na escola, estuda-se que a Antiguidade, ou Idade Antiga, é o período a partir do qual surgiu a escrita, entre 4.000 e 3.500 a.C. Antes dela, tudo era pré-história.
AFORISMO E SENSO COMUM
"Brasil, um país sem memória." A frase funciona como sentença moral, sempre repetida em mesas de bar ou mesmo em análises políticas. Será, no entanto, que o peso da máxima corresponde à realidade? "Dizer que o Brasil é um país sem memória é trazer à tona uma falsa questão, porque sempre existem memórias, às vezes subterrâneas, mas sempre existentes. Então, dizer isso é não compreender a dimensão do que é a memória", diz a historiadora Marieta Ferreira. Em sua análise, a frase faz parte de um senso comum, percepção geral de que os brasi- leiros desconhecem a história oficial do país – por exemplo, não se lembram de todos os políticos que ocuparam a cadeira da presidência. A historiadora avalia que o país pode não ter uma memória política oficial, mas possui, sim, outras formas de cultivo da sua memória, como o resgate da tradição de bairros, cidades, lideranças populares – como Zumbi, entre outros.
Em 2008, o país viveu um importante exemplo de resgate da memória nacional: as comemorações dos 200 anos da chegada da família real ao Brasil. Junto com a lembrança do desembarque de Dom João VI no Rio de Janeiro, em 8 de março de 1808 – e da criação do Jardim Botânico, da Casa da Moeda e do Banco do Brasil, algumas das benfeitorias trazidas pela transferência da corte portuguesa –, as festividades da data singraram o caminho para a construção de novas memórias do país. Além da versão tradicional, de que Dom João era um monarca comilão, roto e inexpressivo, foram amplamente divulgadas análises que o retratavam até mesmo como grande estrategista, capaz de enganar Napoleão Bonaparte e sua ânsia de dominação da Europa pela França. "As sociedades contemporâneas estão preocupadas com a memória porque ela é uma forma de atualizar a identidade de um povo", aponta a historiadora.
A antropóloga Teresinha Bernardo tem outra versão. Ela acredita que a máxima seja resultado da comparação do Brasil com os países europeus. "A Europa é formada de prédios, ruas, lojas muito antigas... Todo um patrimônio que se torna até artístico. No Brasil, como país colonizado, as coisas são diferentes. Veja em Tristes trópicos, no qual Lévi-Strauss relata que andava por São Paulo e via que as ruas, os prédios, tudo mudava de um dia para o outro. Somos um país que está sendo construído, diferente dos europeus."
Vale a pena retomar o texto do antropólogo belga Claude Lévi-Strauss, falecido no final de outubro último e que viveu no Brasil entre 1935 e 1939. Em seus relatos de Tristes trópicos, espécie de narrativa das incursões realizadas pelo país, ele anotou: "Em 1935, os paulistas vangloriavam- se de construir em sua cidade, em média, uma casa por hora. Tratava-se, na época, de mansões; garantem-me que o ritmo sempre se manteve igual, mas com edifícios. A cidade desenvolve-se a tal velocidade que é impossível obter seu mapa: cada semana demandaria uma nova edição. (...) Em tais condições, a evocação de lembranças de quase 20 anos atrás se assemelha à contemplação de uma fotografia apagada".
Talvez tenha sido nessas contradições entre Velho e Novo Mundo que o historiador Sérgio Buarque de Holanda tenha se calcado para avaliar, logo no início de Raízes do Brasil, que a tentativa de implantação da cultura europeia no lado de cá do Atlântico faça dos brasileiros "uns desterrados em nossa terra". Análises à parte, o certo é que a construção do presente leva em conta o passado, mesmo quando se decide ignorá-lo. Assim, todo futuro teve um passado, um presente árias memórias.©
PREENCHENDO LACUNAS
Em maio deste ano, foi criado o Centro de Referência das Lutas Políticas no Brasil (1964-1985) – Memórias Reveladas, projeto coordenado pelo Arquivo Nacional, órgão vinculado à Casa Civil da Presidência da República. A proposta do centro é interligar instituições públicas e privadas, reunir documentos e produzir estudos sobre a história política do país entre 1964 e 1985, período em que vigorou a ditadura militar.
Fazem parte do projeto campanhas de TV e rádio, anúncios em revistas e um site (www. memoriasreveladas.arquivonacional.gov.br), que centraliza o banco de dados e as ações do projeto. O movimento pretende alertar os brasileiros para a importância de entregar ao governo documentos originais ou cópias de textos, fotos, filmes, registros sonoros, entre outros, que contenham informações sobre as atividades políticas do período e suas repercussões na sociedade. A intenção é preencher lacunas na história política do país e coletar informações que ajudem a localizar desaparecidos políticos.
Um dos depoimentos veiculados pelo Memórias Reveladas é o do escritor Marcelo Rubens Paiva, filho do deputado Rubens Paiva. Em 20 de janeiro de 1971, a casa do militante de esquerda foi invadida por homens armados, que o levaram sem prestar satisfações. Nunca mais se teve informações concretas sobre seu paradeiro. A trajetória do político é lembrada, em meio a inúmeras confissões adolescentes, no livro Feliz ano velho, escrito em 1982 por Marcelo. |

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