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| De volta, em grande estilo | |
Editorial do jornal Cruzeiro do Sul de hoje, sábado, dia 11 de julho de 2009, analisando a política de preservação no município de Sorocaba.
A pouco documentada trajetória do abrigo para passageiros de bondes da praça 9 de Julho, que acaba de ser tombado, em grau máximo de preservação, pelo prefeito Vitor Lippi (PSDB), é um exemplo das mudanças de mentalidade da população em relação à preservação dos bens arquitetônicos e culturais, ao longo do tempo.
Erguida em 1942 - segundo o pesquisador Aparício Tarcitani, consultado pela repórter Adriane Mendes, para proteger os alunos das escolas Getúlio Vargas e Júlio Prestes de Albuquerque (Estadão), localizadas na avenida Eugênio Salerno -, a bela estaçãozinha em estilo art-noveau, com formas arredondadas e coloridos vitrais, cumpriu durante muitos anos, enquanto os bondes circulavam pela cidade, a missão a que fora originalmente destinada. |
De volta, em grande estilo
Notícia publicada na edição de 11/07/2009 do Jornal Cruzeiro do Sul, na página 3 do caderno A - o conteúdo da edição impressa na internet é atualizado diariamente após as 12h.
Menos sorte tiveram edifícios importantes da região central, desaparecidos no torvelinho de uma época em que o surgimento de arranha-céus é que era motivo de orgulho para a população
A pouco documentada trajetória do abrigo para passageiros de bondes da praça 9 de Julho, que acaba de ser tombado, em grau máximo de preservação, pelo prefeito Vitor Lippi (PSDB), é um exemplo das mudanças de mentalidade da população em relação à preservação dos bens arquitetônicos e culturais, ao longo do tempo.
Erguida em 1942 - segundo o pesquisador Aparício Tarcitani, consultado pela repórter Adriane Mendes, para proteger os alunos das escolas Getúlio Vargas e Júlio Prestes de Albuquerque (Estadão), localizadas na avenida Eugênio Salerno -, a bela estaçãozinha em estilo art-noveau, com formas arredondadas e coloridos vitrais, cumpriu durante muitos anos, enquanto os bondes circulavam pela cidade, a missão a que fora originalmente destinada.
Entretanto, com a desativação do transporte ferroviário urbano, em 1959, a edificação ingressou em um longo período de decadência, sendo transformada em banheiro público e em ponto de encontro de desocupados, durante a madrugada. Ultimamente, estava fechada e sem uso conhecido.
É curioso notar que, de certa forma, a destinação pouco lisonjeira dada ao abrigo em décadas recentes não deixou de ter seu lado positivo, evitando que fosse descaracterizado ou, pior ainda, demolido por falta de utilidade. Menos sorte tiveram edifícios importantes da região central, desaparecidos no torvelinho de uma época em que o surgimento de arranha-céus é que era motivo de orgulho para a população, ao passo que a manutenção de prédios arruinados encontrava poucos defensores.
Uma das perdas mais significativas desse período, ocorrida quase ao mesmo tempo da transformação do abrigo em sanitário público, foi a do Convento de Santa Clara, fundado por Frei Galvão em 1811 e demolido em 1963 para dar lugar a prédios de apartamentos e comerciais - história que acaba de ser recuperada, com irreverência e bom humor, pelo diretor teatral Mário Pérsico e sua Cia. Clássica de Repertório, na peça O Concílio dos Mortos, que encerrou temporada em junho, em Sorocaba.
A pouca atenção que se deu, durante décadas, ao patrimônio arquitetônico pelo qual a cidade se conectava a seu passado não deixou muita coisa para proteger, e hoje, mesmo com uma inegável evolução da consciência preservacionista, ainda persiste uma certa hesitação em relação ao tema.
A aparente escassez de iniciativas nessa área provocou, em novembro do ano passado, a aprovação, pela totalidade dos vereadores sorocabanos, de um requerimento do tucano José Francisco Martinez, em que este solicitava à Prefeitura informações sobre diversas edificações de valor histórico (o abrigo da 9 de Julho entre elas) e indagava: Por que não se tomba nada em Sorocaba há mais de cinco anos? Na ocasião, foi citado um relatório do Conselho Municipal de Defesa do Patrimônio Histórico segundo o qual existem, em Sorocaba, pouco mais de cem imóveis em processo de tombamento.
É significativo que, poucos meses depois do requerimento, a Prefeitura tenha apresentado uma resposta palpável, pondo o velho abrigo (e, antes dele, em decretos deste ano, os prédios dos batalhões de polícia do Cerrado e a praça Pio XII, em Santa Rosália) a salvo de perigos corriqueiros em um ambiente urbano em eterna transformação. Mas ainda há muito o que fazer, e o colegiado responsável pela análise dos processos terá bastante trabalho até que se possa dizer que Sorocaba, enfim, conseguiu estender a proteção da lei a tudo o que merece, efetivamente, ser mantido.
Mais que isso, será preciso aprofundar, sem medo, a discussão sobre formas de apoio à manutenção dos imóveis tombados, cujos proprietários nem sempre dispõem de recursos para mantê-los. O tombamento não deve, nem pode ser visto como o ponto final de um processo. É, antes, um ponto de partida.
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