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| Memória urbana - Editorial do jornal Cruzeiro do Sul, de 12/02/2009 | |
A preservação de uma fachada na avenida São Paulo - na verdade, a única parede de um casarão construído em taipa no Século XIX - está mobilizando o Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico de Sorocaba (no qual corre um processo de tombamento) e também o Ministério Público, por sua Promotoria do Meio Ambiente e Patrimônio Histórico, que tenta fazer judicialmente com que os proprietários restaurem o imóvel, cujos cômodos desapareceram em circunstâncias não esclarecidas. Enquanto isso, pedestres e vizinhos apontam o risco de desabamento do que restou do imóvel, como detalhou a repórter Regina Helena Santos. |
Memória urbana
Notícia publicada na edição de 12/02/2009 do Jornal Cruzeiro do Sul, na página 3 do caderno A - o conteúdo da edição impressa na internet é atualizado diariamente após as 12h.
Niemeyer é o único homem vivo a quem seria permitido propor novas edificações na capital, mas foi impedido e acabou desistindo provisoriamente de sua “Praça da Soberania”
A preservação de uma fachada na avenida São Paulo - na verdade, a única parede de um casarão construído em taipa no Século XIX - está mobilizando o Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico de Sorocaba (no qual corre um processo de tombamento) e também o Ministério Público, por sua Promotoria do Meio Ambiente e Patrimônio Histórico, que tenta fazer judicialmente com que os proprietários restaurem o imóvel, cujos cômodos desapareceram em circunstâncias não esclarecidas. Enquanto isso, pedestres e vizinhos apontam o risco de desabamento do que restou do imóvel, como detalhou a repórter Regina Helena Santos, ontem, neste jornal (“Fachada de casa ameaça cair na avenida São Paulo”, pág. B1).
Tombamentos de imóveis são sempre polêmicos, na medida em que ocorrem, via de regra, contra a vontade dos proprietários e podem acabar inviabilizando projetos imobiliários lucrativos. Embora imóveis tombados possam ser alugados, vendidos e revitalizados para uso comercial (um exemplo magnífico, em Sorocaba, é a fábrica de tecidos Santa Rosália, adaptada para abrigar um hipermercado), é claro que as opções - tanto para utilização quanto para venda - se tornam um tanto mais restritas a partir do tombamento. Isso assusta os proprietários, e pode ter um efeito perigosíssimo, com a demolição preventiva dos prédios antigos antes que um processo de tombamento seja instaurado.
Talvez justamente por contrapor valores conflitantes como a da preservação da memória e os negócios imobiliários, só muito raramente os tombamentos transcorrem sem discussão e divergências. Os sorocabanos ainda se recordam de casos como o do “casarão do Leite Moça”, como ficou conhecido o sobrado da esquina das ruas da Penha e Moreira Cesar, uma das regiões mais valorizadas da cidade. Depois de muita polêmica e apesar de opiniões contrárias como a do presidente da Ong Memória Viva, engenheiro Sérgio Aranha (que produziu alentado parecer sobre o valor histórico do imóvel), concluiu-se que ele poderia ser demolido sem prejuízo para a memória urbana local, e o casarão desapareceu no começo de 2007.
Ainda mais curiosa, dadas as proporções e os personagens envolvidos, foi a controvérsia que abalou Brasília nas últimas semanas, por conta da intenção do governo do Distrito Federal de construir uma Praça da Soberania, desenhada por ninguém menos que Oscar Niemeyer, o arquiteto que projetou os prédios e espaços públicos da capital. Niemeyer foi à imprensa defender a praça, dotada de obelisco retangular com 100 metros de altura, mas acabou desistindo “provisoriamente” da ideia, diante das acusações de que iria descaracterizar o conjunto arquitetônico que ele mesmo criou, colocando uma barreira visual num dos prédios mais conhecidos, o do Congresso.
Um detalhe curioso é que, segundo a portaria nº 314/1992, pela qual se consubstanciou o tombamento do conjunto urbano brasiliense, Niemeyer é o único homem vivo a quem seria permitido propor novas edificações na capital (o outro era Lúcio Costa, autor do Plano Piloto, falecido em 1998). A resistência de arquitetos e especialistas, além do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), que barrou o projeto da praça, oferece material para interessantes reflexões sobre a relação entre o criador e sua obra, a partir do instante em que esta se torna um bem cultural de caráter coletivo e, como é o caso de Brasília, em patrimônio da humanidade.
Embora sem questionamentos tão profundos, a preservação do patrimônio arquitetônico em Sorocaba não é, porém, menos importante, pois tem a ver com a história e a herança cultural de todos os sorocabanos. E este é um tema que exige uma postura proativa do poder público, não apenas no sentido de colocar sob a proteção da lei aquilo que é historicamente representativo, mas também de contribuir com a manutenção desses bens através de incentivos e contrapartidas aos proprietários - ou o pouco que resta de memória urbana fatalmente desaparecerá.
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