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 O sol que não nasce para Aparecidinha por Carlos Cavalheiro

A ong Memória Viva vai propor o tombamento da procissão da Aparecidinha no IPHAN, estamos publicando texto do pesquisador e historiador Carlos Cavalheiro sobre o assunto. "Há tempos questiono o descaso com que é tratado o importante núcleo histórico de Aparecidinha. É inconcebível o fato de Sorocaba possuir um distrito com tanto potencial turístico e não explorá-lo em benefício da própria população local que sobrevive à míngua com a falta de atenção do poder público."

O sol que não nasce para Aparecidinha

                           

                           Há tempos questiono o descaso com que é tratado o importante núcleo histórico de Aparecidinha. É inconcebível o fato de Sorocaba possuir um distrito com tanto potencial turístico e não explorá-lo em benefício da própria população local que sobrevive à míngua com a falta de atenção do poder público.

                           Um Núcleo Histórico que em questão de pouco tempo só será lembrado graças à placa que assim o qualifica, logo à entrada do bairro. Um cenário pitoresco que melhor seria aproveitado se a política de revitalização e “plantação” de grama se estendesse até lá, de joelhos para pagar promessas de campanha. Antes disso, o distrito da Aparecidinha recebe em seus arredores indústrias, penitenciárias, unidades da Febem...

                            Na contramão da evolução do pensamento humano que prioriza agora a preservação ambiental e do patrimônio histórico, o que se vê naquele local é o abandono. O turismo religioso e rural, tão em voga e com todas as atenções a eles voltadas, incluindo a política desenvolvida pela Secretaria Estadual de Esportes e Turismo, à qual aparentemente, por analogia partidária, deveria se conduzir a nível municipal as ações voltadas para o desenvolvimento turístico; não recebe a atenção devida. Tal é o disparate que em publicações dessa mesma Secretaria, como é o caso do folheto “Guia do Roteiro da Fé”, a cidade de Sorocaba é excluída. Simplesmente não existe. Enquanto outras se aproveitam de eventos religiosos como Folias de Reis, Procissões, Festas de santos e padroeiros, etc... Sorocaba não aparece como cidade e sim como cabeça da região. Cidades como Mairinque, Tietê, Taguai, Laranjal Paulista, Angatuba, Barra do Chapéu, Pilar do Sul, São Roque... apresentam as suas festas religiosas como “cardápio” turístico. Sorocaba não apresenta nada, muito embora possua Folia de Reis, Festeiros do Divino, a afamada Festa de São Benedito (que atrai Irmandades de muitas outras localidades, incluindo da Capital), a concorrida visita ao túmulo de João de Camargo e da menina Julieta durante o dia de Finados, Encenação da Paixão de Cristo na Vila Assis e no Parque Vitória Régia, Benção das Rosas na Festa de Santa Rita de Cássia (Vila Santana), e várias romarias para Aparecidinha. Uma delas, é bom frisar, ocorre todo primeiro domingo de cada mês e o grupo de romeiros que realiza esse percurso representou Sorocaba o ano passado[i] no evento “Revelando São Paulo”, ocorrido em setembro no Parque da Água Branca, na Capital. Então, não é por desconhecimento que Sorocaba não desenvolve o seu turismo religioso. É por descaso, desprezo. Outras romarias importantes e de grande afluxo de pessoas ocorre em Aparecidinha: a romaria da Penitência (todo dia 15 de novembro) e as duas principais, quando a imagem de Nossa Senhora Aparecida deixa seu santuário e permanece na Catedral Metropolitana por alguns meses e o retorno dessa mesma imagem.

                                  Localizada no Vale do Médio Tietê, a cidade de Sorocaba deveria liderar o turismo regional, produzindo o marketing turístico, “vendendo” os produtos do Vale. O cururu, por exemplo, é uma manifestação folclórica típica desta região. A devoção ao Divino Espírito Santo, suas festas, irmandades, folias, Pousos... é outra característica marcante no Vale do Médio Tietê. Sorocaba tem potencial e infra-estrutura para oferecer serviços e produtos voltados para a implementação desse turismo regional. E mais, Sorocaba pode tornar o distrito de Aparecidinha um pólo atrativo ao turismo. Como? O cenário, como já disse aqui, está praticamente pronto. O que falta é vontade política aliada a parcerias da iniciativa privada. Um exemplo prático: recuperar as fachadas dos prédios históricos daquela localidade e incentivar, com isenção de impostos ou outra alternativa similar, a mudança da fachada das construções modernas assemelhando-as com as do estilo colonial. Nessas últimas casas haveria placa indicativa de que se trata de uma réplica e não de uma construção original. A par disso, explorar o espaço da praça para a realização de eventos artísticos e culturais, como exposições de quadros, artesanatos, apresentações musicais, danças... A fórmula que deu certo em Embu. Depois, ou melhor, concomitantemente, a cessão de terrenos para a iniciativa privada que se interessasse em estabelecer empreendimentos como pousadas, restaurantes, lanchonetes... lembrando que a construção desses prédios deveria seguir o modelo colonial. O resto é pavimentação de paralelepípedos de granito nas ruas e limpeza de resíduos e entulhos (nada além das obrigações do Poder Público). Para incrementar o turismo de Aparecidinha seria de bom alvitre a criação de um Festival de Folclore, como muito sabiamente tem sido criado e apoiado em várias cidades como Batatais, Altinópolis, Aguaí, Olímpia e na Capital paulista, sob a égide de Toninho Macedo, homem de capacidade e sensibilidades ímpares, o Revelando São Paulo. Diversos grupos folclóricos da região sorocabana se apresentam nesses festivais. Por que não iriam comparecer no de Sorocaba?

                          A título de curiosidade, o Festival de Folclore de Olímpia recebe em média o equivalente ao triplo da sua população e o Encontro de Folias de Reis de Altinópolis o dobro.

                          Criou-se agora, aproveitando a febre dos caminhos santos, como sabiamente, outrossim, vem se aproveitando o Estado do Espírito Santo com o caminho “Os passos de Anchieta”; aos moldes do caminho de Santiago de Compostela (na Espanha), o “Caminho do Sol”.

                          Partindo de Santana do Parnaíba o peregrino passará por Pirapora do Bom Jesus, Cabreúva, Itu, Salto, Indaiatuba, Elias Fausto, Capivari, Rafard, Mombuca, Saltinho e Piracicaba, até atingir Águas de São Pedro. Reparem que Sorocaba não se incluiu na rota. O distrito de Aparecidinha, com todo o seu apelo religioso, com o peso de ser o segundo templo dedicado a Nossa Senhora Aparecida, com o fato de lá se dirigirem milhares de romeiros anualmente; não será visitado pelos caminheiros do “Caminho do Sol”. Interessante é o fato de o lendário Peabiru, o caminho do Sol, passar, em uma de suas rotas principais, por Sorocaba e por, hoje, Araçoiaba da Serra. Nesse novo caminho, nem Nossa Senhora Aparecida foi lembrada.

                           Segundo os organizadores dessa peregrinação, o trajeto foi estudado e mapeado pelo engenheiro agrônomo saltense Sérgio Cieto, para proporcionar aos peregrinos oportunidade de meditação e devoção, que o desenvolveu tendo como objetivo a Capela de Santiago de Compostela, localizada no interior do Horto Florestal de Águas. A imagem – símbolo espiritual do roteiro - está sendo produzida na região da Galícia, na Espanha, e será entronizada no dia 25 de julho, dia dedicado ao santo.

                       O primeiro grupo sairá de Santana do Parnaíba dia 15 de julho e durante aproximadamente dez dias percorrerá o roteiro até Águas de São Pedro. Carregando a imagem de Santiago de Compostela, esses peregrinos pretendem tornar o caminho uma versão paulista do famoso caminho espanhol. Como tudo é possível, esperamos que algum dia Sorocaba se inclua nesse roteiro. Oxalá que o Poder Público municipal, seus conselhos (de cultura, de turismo, de patrimônio histórico...) desperte da letargia e ofereça ao distrito de Aparecidinha a dignidade que ele merece e a oportunidade de se desenvolver e gerar renda (através da venda de produtos artesanais, de doces caseiros, da formação de guias turísticos e guias mirins, da venda de produtos com selos com a imagem de Nossa Senhora Aparecida...) para a esquecida população daquele distrito. E que o sol do caminho brilhe por lá também.

 

                                                              CARLOS CARVALHO CAVALHEIRO

                                                                        18.06.2002.

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