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 Trajetória e luta operária em Sorocaba: a greve de 1917 por Isabel Cristina Caetano Dessotti

O presente artigo trata de um dos momentos mais significativos da trajetória de luta dos operários no Brasil: a greve de 1917. Esse movimento teve início a partir das reivindicações dos operários das fábricas por aumento de salário, e acabou por transformar-se num movimento social, traduzindo todo o sofrimento das classes populares, que não suportavam mais o alto custo de vida. Diante desse quadro, a adesão dos operários foi maciça, bem como a propagação de um ideário contra esse estado de exploração. Optou-se por retratar o ocorrido em Sorocaba com destaque na Fábrica de Tecidos Votorantim, que na época era a maior fábrica de Sorocaba, e por ter enfrentado outras dificuldades além da greve.

Trajetória da luta operária em Sorocaba: a greve de 1917
 
Artigo publicado na edição nº 13 de agosto de 2006.

Isabel Cristina Caetano Dessotti

O presente artigo trata de um dos momentos mais significativos da trajetória de luta dos operários no Brasil: a greve de 1917.

Esse movimento teve início a partir das reivindicações dos operários das fábricas por aumento de salário, e acabou por transformar-se num movimento social, traduzindo todo o sofrimento das classes populares, que não suportavam mais o alto custo de vida. Diante desse quadro, a adesão dos operários foi maciça, bem como a propagação de um ideário contra esse estado de exploração.

Optou-se por retratar o ocorrido em Sorocaba com destaque na Fábrica de Tecidos Votorantim, que na época era a maior fábrica de Sorocaba, e por ter enfrentado outras dificuldades além da greve.

A abordagem do assunto se fez pela ótica do jornal Cruzeiro do Sul de Sorocaba.

I – A greve chega em Sorocaba

Em 17 de julho de 1917, o jornal Cruzeiro do Sul traz uma reportagem de mais de uma página com a manchete: “A greve nesta cidade”. A matéria relata que cerca de 10 mil operários ainda se encontram parados, pois “querem aumento de salário” e que os bondes estão paralisados e o comércio encontra-se com as portas cerradas.

Para o jornal a declaração de greve por parte dos operários não era “surpreza”, já que a situação dos trabalhadores em Sorocaba era semelhante aos da capital.

O encarecimento rápido e crescente dos generos de primeira necessidade e o decrescimo de salarios, realisado em alguns estabelecimentos concorreram, além de outros motivos de ordem secundaria, para levar os operarios à greve. De facto, não era possível que as coisas continuassem no pé em que estavam. A miséria negra e horrivel ameaçava centenas de lares.
Ao trabalho exhaustivo de horas excessivas, não correspondia uma alimentação generosa e bôa, pois a começar do pão, todos os artigos subiram muito o preço e os operarios eram coagidos a reduzir ainda mais o seu parco “menu”.
Os operarios em parede pacifica procuram nem mais nem menos do que conseguir um pequeno augmento de salario.
Foi para esse fim que se declarou A GREVE. (Cruzeiro do Sul, 17 jul. 1917, p. 01)

A reportagem passa a descrever com detalhes os procedimentos e itinerários adotados pelos grevistas.

No entanto, os grevistas se depararam com a recusa de adesão por parte dos operários da Fábrica Santo Antonio, que não estavam descontentes com seus patrões, já que no mês anterior (junho) receberam uma gratificação em 25% de seus ordenados e a promessa de melhorá-los ainda mais. Por fim, acabaram estes por aderir ao movimento em consideração aos colegas.

Desta fábrica dirigiram-se os grevistas para as oficinas da Sorocabana Railway, onde os operários aderiram ao movimento maciçamente seguindo-se já em numeroso grupo para a Fábrica de Chapéus Souza Pereira.

Prossegue a notícia de que o grupo de grevistas aumentava a cada fábrica visitada, seguindo para a Fábrica de Tecidos Santa Rosália. Rapidamente se generalizava a greve. Seguiram, então, para Fábrica Santa Maria. Também lá os operários já haviam tido aumento de salário, mas aderiram ao movimento em solidariedade e espírito de união.

Aderiram ao movimento, conforme noticia o jornal ainda no dia 17 de julho de 1917, a Fábrica de Estamparias São Paulo, a fábrica de Arreios de Ferreira & Cia, Fábrica de Calçados Soares, Fábrica de Tecidos Votorantim e Fábrica de Calçados “Fausto”.

A maioria das casas de comércio teve que fechar suas portas diante da atitude dos grupos de grevistas que assim exigiram. Os bondes deixaram de correr desde o dia anterior e os motorneiros e condutores foram forçados a deixar o trabalho.

A polícia local recorreu às forças da capital a fim de controlar e reprimir o movimento grevista que se generalizava com rapidez. A ação da polícia nas manifestações dos trabalhadores foi registrada pelo jornal Cruzeiro do Sul:

A policia agia com calma e reflexão de modo a merecer elogios. O sr. Dr. Lima Camargo delegado de polícia e seus auxiliares foram incansáveis na regularização do trabalho nesta cidade, já servindo de mediadores entre os operarios e os patrões com o nobre fim de concilial-os, já tomando medidas para que a ordem pública se não subvertesse.
A força policial vinda da capital teve ordens de dispensar uma agglomeração de populares que, desde cedo, estacionava na praça Cel. Fernando Prestes.
Intimou, pois, por três vezes, o povo que se dispersasse. Como não fosse attendida e não tivessem os operarios licença para realizar o comicio em que fallava o sr. Bandoni – a policia fez uso dos espadins, chegando mesmo a cometer excessos lamentaveis e ferindo pessoas de representação da nossa sociedade que nada tinham com a greve e se achavam misturadas por curiosidade com os operarios. O dr. Alonso Negreiros (delegado) sabedor desse facto lamentou-o muito e promptificou-se a dar explicações aos queixosos. (Cruzeiro do Sul, 17 jul. 1917, p. 01)

Os industriais de Sorocaba, temendo que a greve na cidade tomasse os rumos que acontecia na capital, acharam por bem conceder alguns benefícios aos operários. Assim, reunidos na residência do senhor Jorge Kenworthy, resolveram conforme noticiado pelo jornal Cruzeiro do Sul:

O que resolveram os industriaes:
Como dissemos os industriaes daqui subscreveram as resoluções tomadas pelos da capital com o fim de dar uma solução à greve que agitou São Paulo a acta de reunião dos nossos industriaes.
“Os industriaes de Sorocaba abaixo-assignados, reunidos hoje nesta cidade resolveram fazer aos seus operarios as mesmas concessões feitas ao operariado da capital pelos industriaes dalli e que são as seguintes:
a – augmento de 20% sobre os salarios em geral
b – não dispensar do serviço qualquer operario que tenha tomado parte da presente greve
c – respeitar “in totum” o direito de associação dos seus operarios
d – effectuar o pagamento dos salarios dentro da primeira quinzena que se seguira do mez vencido
e – acompanhar com a maxima boa vontade as iniciativas que forem tomadas no sentido de melhorar condições moraes, materiaes e economicas do operariado de Sorocaba
Estas condições serão postas imediatamente em vigor, desde que os operarios recomecem amanhã seu trabalho”
Sorocaba, 16 de julho de 1917
Os industriaes.
(Cruzeiro do Sul, 17 jul. 1917, p. 01)

Ao término desta reunião, o delegado de polícia de Sorocaba emite o seguinte boletim publicado pelo jornal Cruzeiro do Sul de 17 de julho de 1917, respaldando sempre a atuação dos industriais.

Ao povo
Em reunião os industriaes desta localidade resolveram adaptar as concessões do operariado da capital, hoje publicadas pelos jornaes
A policia esta preparada para garantir as pessoas a propriedade e o trabalho da população ordeira de Sorocaba, bem assim para agir no caso de qualquer excesso por parte dos elementos perturbadores da ordem pública contando com a calma e prudencia de todos os habitantes desta culta cidade
Sorocaba, 16 de julho de 1917
Alfredo de Lima Camargo
Delegado de Policia.
(Cruzeiro do Sul, 17 jul. 1917, p. 01)

II – A Fábrica de Tecidos Votorantim

Os operários Votorantim, muito antes da greve deflagrada em julho de 1917, já passavam por grandes necessidades.

Em 17 de julho de 1917, o jornal Cruzeiro do Sul, ao noticiar o movimento grevista das fábricas de Sorocaba, também informa sobre a situação na Fábrica Votorantim:

A Fabrica Votorantim estava em greve há quase um mez. Há poucos dias, porem, foi arrendada a dois capitalistas que resolveram fazer funcional-a hontem. Assim iniciou-se o trabalho na parte a que chamam “fabrica velha”. Mas sendo reclamada a adhesão dos seus operarios, a fabrica paralysou-se. (Cruzeiro do Sul, 17 jul. 1917, p. 01)

A fábrica de tecidos pertencia ao Banco União, que se encontrava em sérias dificuldads financeiras, culminando com a falência após a greve de julho. Contribuíram para a falência o grande incêndio ocorrido nos depósitos de algodão da fábrica em 25 de fevereiro de 1917 e as dificuldades oriundas da 1ª Guerra Mundial. Os tecidos crus eram importados da Inglaterra para serem estampados na fábrica de chitas. Com a guerra nenhum navio podia cruzar o oceano. Começava a derrocada do grupo chamado Banco União.

Sobre o grande incêndio noticiou o jornal Cruzeiro do Sul em 26 de fevereiro de 1917:

Arde um deposito de algodão da Fabrica de Tecidos de Votorantim. Os prejuizos aproximam-se de mil contos de reis.
O incendio começou as 18 h 45 min só foi contido de madrugada quando o corpo de bombeiros chegou.
A fabrica de tecidos Votorantim pertence ao Banco União de São Paulo é um dos estabelecimentos industriaes de maior importância do Estado. Possue cerca de 1200 teares e neles trabalham calculadamente 3 mil operarios.
No deposito existiam 3200 fardos de algodão, muitas barricas de soda caustica e potassa, grande quantidade de farinha de trigo; enumeras botijas de ácido para preparação de tinta etc.
O fogo tomou proporções assustadoras.
A população de Votorantim, composta em quasi sua totalidade de operarios affluiu ao logar o incêndio rapidamente tentando dominar as chamas, luctando com grande dificuldade por falta de numero suficiente de mangueiras e aparelhos extinctores de incendio no deposito.
Do inquerito aberto ficou constatado que o incendio não foi proposital, sendo o mesmo atribuido a alguma fagulha desprendida por uma locomotiva fagulha esta que penetrou por abertura situada na parte superior do barracão.
Os prejuizos subiram a quase 1000 contos de réis, estando o deposito de algodão da referida fábrica de tecidos seguro em 240 contos de réis.(Cruzeiro do Sul, 26 fev. 1917, p. 04)

Com o final da greve em julho de 1917, a Fábrica Votorantim não reabriu, pois o Banco União não podia pagar o aumento para os operários. E principalmente porque os salários já estavam atrasados.

O jornal Cruzeiro do Sul noticia em 20 de julho de 1917:

Centenas de operarios da importante Fábrica de Tecidos Votorantim estiveram hontem nesta cidade onde vieram pedir apoio à imprensa, às pretenções que tem de serem beneficiados com as concessões feitas ao operariado daqui. Uma commissão operaria procurou nesta cidade o sr. Soares Fernandes, gerente daquella fabrica, para inteiral-o dos desejos que alimentam os proletarios votorantinenses. Essa commissão não poude ser ouvida pelo sr. Soares que se acha na capital.
Acontece, porém, que a Fabrica Votorantim parada por motivo de greve, continua fechada, não já por causa de greve mas por fallencia do Banco União ao qual pertencia.
Só os syndicos da massa falida por enquanto poderão deliberar sobre o funcionamento da fabrica. Quanto ao augmento dos salarios do operariado e outras concessões apenas poderão resolver sobre o assumpto os novos proprietarios do estabelecimento fabril que se não sabe ainda quais sejam.
Os operarios acham-se assim numa situação especiallissima em relação aos da fabricas de Sorocaba, numa situação dificil mesmo porque estão em sua maioria sem recursos pecuniarios ou têm de esperar de braços cruzados que reabra a fabrica o que não se pode dizer quando será ou têm de empregar a sua actividade na lavoura, nas outras fabricas ou do melhor modo que entendam.
Do augmento de salarios é que por ora não podem tratar pela razão que apontamos. (Cruzeiro do Sul, 20 jul. 1917, p. 2)

A situação do operariado votorantinense agravava e o caso parecia não ter solução favorável. Em 26 de julho de 1917 publica o jornal Cruzeiro do Sul:

Segundo informações que obtivemos de fonte insuspeita há familias no Votorantim, que, reduzidas à estrema miséria, padecem fome. Fechou-se o armazem fornecedor mas mesmo que estivesse aberto, os operarios faltos de recursos pecuniarios, nada poderiam comprar para matar a fome de seus filhos.
É sempre collorindo com magua as suas palavras que os operarios do Votorantim nos contam o que vae por la. A fabrica de tecidos esta fechada, não tendo ainda sido resolvida a sua reabertura por varios impecilhos existentes.
Ao que nos consta um commissão operaria precatoria vem a Sorocaba angariar recursos para socorrer os mais necessitados daquella população e minorar-lhes os padecimentos. Parece que é esse por ora, o melhor caminho a seguir. (Cruzeiro do Sul, 26 jul. 1917, p. 02)

Diante dessa situação a Fábrica de Tecidos foi arrendada por cinco anos a “capitalistas” de São Paulo e Rio de Janeiro por mil contos anuais.

Em 27 de julho de 1917, o Cruzeiro do Sul publica:

Uma agradável nova
A fabrica de tecidos Votorantim reabriu-se hontem recebendo as quarenta familias que haviam sido despedidas numa das ultimas greves, augmentando dez por cento os salarios do operariado e concedendo-lhes 10 horas de trabalhos diarios.
Ante-hontem ainda nos referiamos as dificuldades por que passavam alli os operarios sem trabalho, visto permanecer fechada a fabrica.
Felizmente o caso teve uma solução e o nosso mais importante estabelecimento fabril funcciona. (Cruzeiro do Sul, 27 jul. 1917, p. 03)

Com a reabertura da fábrica, o operariado votorantinense, representado por uma comissão, coloca na seção livre do jornal Cruzeiro do Sul, edição de 28 de julho de 1917, um agradecimento às pessoas que contribuíram para um desfecho favorável do caso, enfatizando as agruras pelas quais passaram as famílias dos operários.

O operariado de Votorantim
Exulta. E com razão.
Há um mez a fabrica fechou suas portas.
Mais de 1500 operarios ficaram inativos na espectativa.
Aos poucos os minguados recursos de cada um decresciam e a miseria e a fome se installava em cada lar acabando por descer e estender-se sobre a população deste bairro, exclusivamente operaria o tetrico veo da penuria e do desespero.
Angustiosa situação.
O proletariado de Votorantim resignado com a sorte soffreu o peso brutal do affictivo estado de cousas, sem um protesto e sem um lamento.
No entanto para aqui era enviado o sr. Alferes Durval de Castro Silva com um contingente de soldados, prevenido por alarmantes boatos. O sr. Alferes perspicaz e arguto, em pouco tempo constatou o contraste flagrante entre o boato e a altitude pacata, ordeira e resignada do operariado.
Isso tocou o seu coração resoluto como é, tanto para castigar como para premiar.
Com abnegação e altruísmo tentou e conseguiu advogar com grande êxito a causa operaria, isto é, o reencetamento do trabalho, dez horas por dia, pagamento em cada quinzena do mez e augmento de 10% sobre o ordenado de cada um.
Além do mencionado mais conseguiu: a readmissão dos que foram despedidos e a soltura de dois companheiros provada a sua innocencia.
Eis ahi o fructo benemerito dum trabalho fecundo e animado pela scentelha do amor ao próximo e desinteresse.
Justamente por isso que o proletariado de Votorantim com a publicação destas linhas torna patente o seu alto reconhecimento e gratidão ao sr. Alferes Durval tornando estensivo os seus agradecimentos ao Sr. Secretario de Justiça, Dr. Delegado de Polícia de Sorocaba Soares Fernandes, Pereira Ignácio e Comp. Capitão José A. Castanho cuja intervenção também foi muito eficaz Nicolau Scarpa e as demais pessoas que se interessaram pelo seu bem estar.
Votorantim, 26 de julho de 1917
Pelo operariado
A Commissão.
(Cruzeiro do Sul, 20 jul. 1917, p. 02)

A fábrica de tecidos reabriu e com a nova direção aumentou a produção continuando a ser a maior fábrica de Sorocaba empregando grande número de pessoas. Entretanto, as condições de trabalho ainda eram precárias para o povo votorantinense.

Considerações finais

Dos documentos, manifestos operários e até jornais dessa época aparece a descrição das fábricas como verdadeiros ergástulos. Concorriam para essa analogia as longas jornadas de trabalho, a indefinição para o dia de pagamento dos salários, as condições insalubres do trabalho, a mão-de-obra de mulheres e crianças, a desobrigação da fábrica em atender aos acidentados ou aqueles que eram vitimados por doenças próprias das condições insalubres.

O operário continuava aprisionado mesmo fora da fábrica, pois morava em casa que pertencia à fábrica e por isso pagava aluguel, comprava gêneros alimentícios nos armazéns que pertenciam às fábricas, portanto, pagando o preço determinado por estas.

A greve de 1917 não foi a primeira, nem podia ser a última para os operários, haja vista os depoimentos daqueles que vieram depois dela. Mas para os trabalhadores daquela época, ela trouxe ganhos, porém, insuficientes para a vida melhorar. Isso significava que a caminhada de luta ainda era muito longa. E isso todos sabiam...

Fonte : Histórica - Revista On Line do Arquivo Público de São Paulo
http://www.historica.arquivoestado.sp.gov.br/materias/anteriores/edicao13/materia02/#topo

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