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A nossa amiga Lelia Maria Romero, do Instituto de Cultura Árabe, o ICARABE, esta publicando no site do Instituto uma série de artigos sobre o xadrez, muito interessante. No primeiro artigo : "O JOGO DE XADREZ - O mundo" faz uma original apresentação do jogo. No segundo :"O JOGO DE XADREZ - A batalha" continua a Leila com as suas explicações e comparações. Imperdível.
"Sessenta e quatro quadros em branco e negro: esperar e agir, matar ou morrer. Dezesseis figuras organizadas em oposição simétrica. Quando entram em movimento as 32 peças do jogo de xadrez, o tabuleiro, o mundo, se torna um campo de batalha. A palavra xadrez vem do sânscrito, “chaturanga”, passando pelo árabe, “chataranj”. O número oito, que cobre as bordas do tabuleiro, representa tanto a eternidade imutável como a auto- destruição".
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| 11/12/2006 |
O JOGO DE XADREZ - O mundo
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Lelia Maria Romero
Contam que a expressão “xeque mate” vem do árabe al-cháh mát: “o rei está morto”. Cháh por sua vez deriva do persa e significa “rei”, por isso o jogo de xadrez passou a ser considerado um “jogo real”. Através da convivência com os persas, os árabes incorporaram o jogo de xadrez e o passaram à Europa cristã. Permaneceu conhecido como o jogo real não somente pela peça do “rei” como também pelo simbolismo intrínseco. O que pode se chamar de arte real, está na própria concepção do jogo de xadrez, no qual se manifesta a relação entre a ação de livre escolha e a inevitabilidade do destino.
O tabuleiro de xadrez representa o mundo. De origem indiana, o tabuleiro corresponde a uma mandala na qual estão representados, geometricamente, os ciclos cósmicos que voltamos a encontrar. As quatro casas centrais expressam as quatro manifestações básicas dos pontos cardeais, das estações do ano ou dos elementos que compõem o universo: terra, fogo, água e ar. As 12 casas que rodeiam esse centro, assinalam para os signos do zodíaco, e as casas que bordeiam o tabuleiro são os 28 dias da Lua. O branco e o negro, referência ao princípio do claro-escuro, lembram a luz e a treva, nascer e morrer. Tudo em conjunto, imagens e números, modelam os movimentos cósmicos no tempo.
O rei de Toledo, Afonso X, o sábio, declarado admirador do refinamento da cultura árabe, manteve as escolas de tradução em Toledo depois de tomada pelos cristãos. Cultivou a música, a poesia e elaborou 1254 “Libros de Acedrex”. Escrito em língua romance e baseado em fontes árabes, as regras do xadrez e de outros jogos parecidos, estão expostas de forma a ressaltar o simbolismo do tabuleiro: o universo esquematizado no “jogo das quatro estações”. Nessa disputa há quatro peças com as cores das estações, ou dos quatro elementos ou dos quatro humores fisiológicos, que se movimentam lutando em forma circular.
Nos “Libros de Acedrex” há uma imagem emblemática: um cavalheiro cristão, convidado à tenda de um cavalheiro hispano-árabe, joga xadrez com ele. As lanças de ambos estão fora, fincadas no chão, uma ao lado da outra, signo de hospitalidade e respeito.
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Lelia Maria Romero
| 2/1/2007 |
O JOGO DE XADREZ - A batalha
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por Lelia Maria Romero
Sessenta e quatro quadros em branco e negro: esperar e agir, matar ou morrer. Dezesseis figuras organizadas em oposição simétrica. Quando entram em movimento as 32 peças do jogo de xadrez, o tabuleiro, o mundo, se torna um campo de batalha. A palavra xadrez vem do sânscrito, “chaturanga”, passando pelo árabe, “chataranj”. O número oito, que cobre as bordas do tabuleiro, representa tanto a eternidade imutável como a auto- destruição.
O jogo viajou pela Pérsia, marcou a vida culta no Alandaluz e caminhou à Provença francesa. Apesar da distante origem e deslocamento, o jogo de xadrez parece ter pouco se modificado. Contam que outrora, tratava-se o tabuleiro de um campo de batalhas cósmicas, no qual mediam forças os seres celestes como os devas, anjos e demônios. Para os árabes, que conheceram o xadrez através dos persas em plena expansão do islã, a disputa no jogo associou-se à arte bélica desenvolvida ao longo da Idade Média. No final do século XI, Ibn Ammar e Afonso VI disputaram a autonomia de Sevilha num jogo muito parecido com o que conhecemos hoje: a peça da “rainha” era o vizir, que em persa dizemos fersan, o que derivou para provençal como fierce e daí chegou à vièrge em francês, para então evoluir à rainha. Os “bispos”, no jogo original, eram elefantes. A cavalaria e os carros de combate se juntaram ao símbolo da torre, representando o armamento pesado, com movimentos mais limitados que no jogo de hoje. Os soldados da linha de frente são os peões da primeira fila no tabuleiro.
O xadrez se implantou como o jogo dos príncipes e de toda a classe guerreira. O jogador, fosse o vizir ou um comerciante, deveria respeitar as leis do mundo em batalha: conhecimento e equilíbrio. Frente às diversas possibilidades de cada lance, o jogador controlaria a paixão para não fazer escolhas equivocadas. Uma jogada mal concebida o levaria à limitações futuras, tornando as estratégias cada vez mais difíceis até o encurralamento. Xeque-mate: o rei está morto!
O tabuleiro em movimento é o jogo, a batalha, o mundo em ação. O guerreiro sábio tem claro o vínculo entre o conhecimento das leis e a liberdade de escolha. Só transgride quem conhece e arrisca. Superar-se é também uma escolha.
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por Lelia Maria Romero
Fonte : http://www.icarabe.org/
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